Por que a Marvel faz melhores filmes do que a DC

Se eu tivesse que escolher um momento - um único momento que destacasse o motivo do interesse no MCU (Marvel Cinematic Universe) ser muito maior do que o interesse nos DC Films, eu escolheria a cena da fazenda em Vingadores: Era de Ultron.


Ouvi uma história que Joss Wheadon lutou com unhas e dentes com os executivos da Marvel para manter esta cena no filme -- e acho que a razão pela qual ele fez isso é porque ele entende por que todo filme Marvel tem sido um total sucesso comercial: personagens.

Uma ótima maneira de provar essa teoria é simplesmente olhar para o personagem do Capitão América. No início da trilogia, um Steve ainda sem poderes resiste a um valentão depois de levar umas bordoadas ao dizer:


E ao final de Capitão América: Guerra Civil, ao enfrentar o Homem de Ferro, Steve novamente diz:


Qual o objetivo dessas duas falas? Em primeiro lugar, dá certa beleza poética aos filmes: uma de suas primeiras falas na trilogia também é uma das últimas. Isso não só ajuda a fechar o ciclo, mas também serve a um propósito maior: além de nos dizer qual a opinião que Steve tem de Tony (que ele é um bully), serve como uma declaração por parte dos roteiristas e diretores -- o personagem por quem simpatizamos no primeiro filme é o mesmo que vemos na tela no terceiro.

Não querendo sugerir que Steve Rogers não possua um arco de desenvolvimento ao longo da trilogia, muito pelo contrário. Ele começa como um patriota otimista pronto para cumprir seu dever, e acaba com um homem desiludido, cuja lealdade às instituições que ele lutou tanto para proteger se torna praticamente inexistente. Realmente, o objetivo desta fala é dizer-nos que, mesmo depois de todas suas aventuras, perdas e de ter seus valores questionados, ele permanece fiel a si mesmo. Isso mantém o público investido e é exatamente por momentos como esse que muitos fãs voltam para mais e mais.

Outro exemplo é com o Homem de Ferro. No início de seu primeiro filme, quando confrontado por uma repórter sobre seu apelido referente às atrocidades que permitiu acontecer, ele diz:


Esta cena faz um trabalho maravilhoso ao estabelecer sua visão de mundo. O fato de ele não se incomodar com o apelido "Mercador da Morte" mostra o quão pouco ele se preocupa com outras pessoas, e que o fato de ter permitido que milhares de pessoas morressem é algo que ele realmente não o preocupa. Porém, à medida que o filme progride, Tony vê em primeira mão o terrível efeito de suas ações e se torna melhor. Ele tenta corrigir seus erros ao encerrar a produção de armas em sua empresa e se recusar a vender seu traje de Homem de Ferro.


Com este arco bem entregue, em que ele começa a se tornar mais responsável e se preocupar com o mundo, podemos ver Tony se tornar completo. Por isso em Guerra Civil, a descoberta de que é parcialmente responsável pela morte de um jovem o leva a um luto profundo -- e quando essa descoberta é sua motivação para cada ação e decisão que toma durante o filme, não a questionamos.  São todas alinhadas ao personagem do Homem de Ferro que a Marvel construiu com tanto cuidado até este ponto.


Essa evolução do personagem de Tony (em que suas atitudes são opostas ao personagem que vimos no início) não é forçada. Ela é aceitável e compreensível, pois a Marvel trabalhou o suficiente para ganhar o direito de ver esse personagem tornar-se cativante.

A razão pela qual a Marvel tem sido tão bem sucedida é que eles dificilmente fazem um personagem soltar uma fala ou tomar uma decisão que não é absolutamente consistente com o personagem que eles construíram em seus filmes anteriores. É uma regra de ouro, e um dos motivos pelos quais voltamos para ver as continuações -- não conseguimos evitar e nos deixar envolver na história do personagem.

Por outro lado, é precisamente por essa razão que a Liga da Justiça se deu tão mal na bilheteria -- eles ignoraram a regra de outro da Marvel. Por exemplo, em Batman vs. Superman, o personagem de Batman é sem dúvida sua versão mais sombria já retratada no cinema.


Ele está velho e amargo,  qualquer vestígios de otimismo ou felicidade destruídos por décadas de perdas e tormento. Em BvsS, Batman nunca sorri ou solta uma piada. Não há nada de ruim nessa decisão criativa, e para muitas pessoas foi o principal destaque do filme. Porém o que DC fez quando Liga da Justiça foi lançado?





Transformaram o Batman brutalmente sombrio de Ben Affleck em alguém que solta piadinhas. Se em BvsS o Batman fosse desde o começo um cara com senso de humor,  essas falas em Liga da Justiça teriam sido perfeitamente aceitáveis. No entanto, não é o caso -- estabeleceram e um personagem sombrio para depois o comprometerem no filme seguinte. Pode até haver alguém por aí que diga que essa mudança em Batman é um desenvolvimento de personagem natural entre os dois filmes, mas não é verdade.

Quando Thor começa como um bruto ignorante e acaba sábio e com um novo respeito por seus semelhantes, isso sim é um arco de personagem.


Quando o Capitão América se torna de um patriota otimista em um homem desconfiado de seu próprio governo, isso sim é um arco de personagem.


Quando o Homem de Ferro se transforma de um playboy egoísta em um homem mais humilde, que se preocupa em fazer o que é certo, isso sim é um arco de personagem.


A Warner Bros percebeu que várias pessoas se queixaram do tom escuro de BvsS e, como resultado, decidiram que a Liga da Justiça teria muito mais humor. A DC mudou o personagem, não porque fosse parte do desenvolvimento natural dele, mas porque eles queriam levar adiante suas ideias de tornar a sequência mais alegre. Isso realmente demonstra as diferentes abordagens que os dois estúdios têm diante seus personagens, e explica por que os personagens de Marvel são tão amados e os da DC nem tanto.

A Marvel trata seus personagens como seres humanos, com suas próprias personalidades e ideais, e sempre os consideram cuidadosamente ao planejar um enredo. O personagem não pode ter uma fala ou uma decisão que comprometa quem ele é, pois isso o tornaria inconsistente e portanto, menos envolvente. Este é um conceito que a DC não conseguiu entender. Eles não tratam seus personagens como seres humanos, mas sim dispositivos para executar suas várias idéias e planos. E se a DC se deparar com a decisão de ter que comprometer um personagem estabelecido, obrigando-o a fazer algo inconsistente -- eles a tomarão sem hesitar se isso os permitir cumprir sua agenda (como a de tornar Liga da Justiça um filme mais engraçado).

Esta é também a razão pela qual Mulher Maravilha e Homem de Aço são considerados os melhores filmes da DC até o momento. Eles se sucederam onde todos os outros filmes falharam: personagens convincentes e envolventes. O problema fundamental em BvsS é que, antes do primeiro diálogo ser escrito, a DC já tinha uma ideia clara do enredo: o filme é sobre o Batman lutando contra o Superman e, no final, eles precisam ser amigos e abrir caminho para Liga da Justiça -- todo o resto era detalhe para ajudar a construir o momento da luta. Basta avaliar as motivações de Superman para perceber que esse era o caso. Sua motivação é que sua mãe está sendo mantida refém e que ela será morta se ele não lutar contra Batman. Não se trata de um conflito interno que envolve seus valores pessoais.


No corte extra, há uma cena excluída em que Superman investiga as vítimas do Batman e percebe que eles geralmente morrem na prisão. Os criadores perceberam que, se essa fosse a principal razão pela qual o Superman fosse lutar contra Batman, seria inviável terminar o filme com os personagens em bons termos -- então eles calçaram no fato de que sua mãe estava sendo mantida refém.


Os escritores tinham uma lista de momentos que eles queriam construir e, como resultado, nada mais importava, nem as motivações ou a consistência com os arcos. E portanto os personagens são fracos e enfadonhos. Um escritor irredutível com a progressão do enredo quase sempre resulta em personagens tediosos. Em vez de dar aos personagens suas motivações e projetar a partir disso, a DC decide antes o que os personagens devem fazer, e inversamente constrói suas motivações.

É muito provável que Vingadores: Guerra Infinita seja um dos filmes de maior bilheteria de todos os tempos, pois a Marvel trabalhou duro para dar vida a um grande leque de personagens que são ricos e convincentes. CGI de ponta, sequências de ação bem coreografadas e bons efeitos sonoros são totalmente inúteis sem um personagem que envolva e cative o público. Isso é algo que Marvel domina como uma ciência, e um obstáculo DC ainda não conseguiu superar.

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